Você não está sendo informado. Você está sendo programado!

Costumo escrever aqui sobre processos seletivos e grafologia, mas hoje preciso ampliar as fronteiras deste espaço para falar de algo que me inquieta: a facilidade com que informações falsas circulam e são absorvidas como verdades. Vivemos tempos em que qualquer mensagem viral pode moldar opiniões e decisões, inclusive no ambiente profissional.

Minha preocupação vai além das “fake news”: é com a banalização da expertise. Hoje, qualquer pessoa pode “aprender” com a IA, estruturar um curso relâmpago e oferecer serviços sem experiência real. E muitos confiam nesses profissionais da mesma forma que confiam em mensagens virais, porque “parece verdade”.

Como profissionais de RH e grafólogos, sabemos o peso da responsabilidade que carregamos. Por isso, convido vocês a refletirem sobre como o discernimento e o pensamento crítico tornaram-se questões de sobrevivência, tanto pessoal quanto profissional.

Higiene Mental: Por que o discernimento virou questão de sobrevivência?

Houve um tempo em que o nosso maior desafio era encontrar a informação; hoje, o nosso maior desafio é sobreviver a ela.

No rastro de vídeos que nunca aconteceram e imagens que desafiam nossa percepção da realidade, a velha máxima “ver para crer” faliu oficialmente. Estamos mergulhados em uma infodemia onde a mentira é desenhada sob medida para as nossas emoções.

O discernimento deixou de ser apenas uma habilidade elegante para se tornar uma questão de higiene mental. Se você não limpa o que entra na sua mente com o mesmo rigor com que lava as mãos, você não está apenas sendo informado, você está sendo colonizado por uma realidade que pode nem existir.

O fim da era da inocência visual

Vivemos um momento sem precedentes: pela primeira vez, não podemos mais confiar nos nossos próprios olhos. A inteligência artificial ultrapassou a barreira da percepção humana, criando conteúdos indistinguíveis da realidade. Deepfakes não são mais experimentos, são armas de manipulação em massa, disponíveis a um clique.

As fraudes com deepfakes explodiram globalmente, com crescimento vertiginoso entre 2024 e 2025. No Brasil, o aumento ultrapassou 100%.

Os casos que ninguém imaginou                         

Em fevereiro de 2024, um funcionário em Hong Kong transferiu US$ 25 milhões para criminosos durante uma videochamada no Zoom com o diretor financeiro e outros executivos da empresa. Todos eram deepfakes. A chamada inteira — rostos, vozes, gestos — era completamente falsa.

Eric Eiswert, diretor de escola nos Estados Unidos, teve um áudio falso criado por um funcionário insatisfeito, colocando-o fazendo comentários racistas. O vídeo viralizou. Eiswert recebeu ameaças de morte e precisou mudar de emprego. Meses depois, as autoridades confirmaram que o áudio era falso. Mas sua reputação já estava destruída.

Quando qualquer pessoa pode gerar um vídeo convincente de alguém dizendo algo que nunca disse, a própria noção de “prova” entra em colapso. E aqui está a ironia cruel: pessoas reais podem alegar que vídeos autênticos são falsos. Quando tudo pode ser falso, nada precisa ser verdadeiro.

A prisão invisível dos algoritmos

Se os deepfakes são o veneno, os algoritmos são o sistema de distribuição. Toda vez que você abre uma rede social, está entrando em uma realidade construída para você. Cada like, cada segundo a mais, alimenta um algoritmo refinando uma teoria sobre quem você é.

O problema não é que os algoritmos personalizam conteúdo. É que eles nos prendem em câmaras de eco, bolhas onde só ouvimos ecos amplificados das nossas próprias opiniões.

As redes sociais têm um único objetivo: manter você na plataforma pelo maior tempo possível. A forma mais eficaz? Mostrar aquilo que você já concorda, que confirma suas crenças, que provoca resposta emocional forte.

Você não escolheu estar em uma bolha. Foi colocado nela por algoritmos opacos com objetivos comerciais. E as bolhas distorcem nossa percepção: quando todos parecem concordar com você, você acredita que sua visão é a única verdade óbvia.

Pensamento crítico como estilo de vida

Discernimento é filtrar o falso do verdadeiro, o urgente do importante. Mas vai além: é a capacidade de habitar a zona desconfortável da incerteza e reconhecer os limites do seu conhecimento.

O discernimento o alerta quando algo não bate. O pensamento crítico o equipa para investigar o porquê. Você precisa dos dois: um sem o outro deixa você vulnerável.

A frase mais rara da atualidade: “Eu não sei o suficiente sobre isso para ter uma opinião.”

Vivemos em um tempo onde todos se sentem obrigados a opinar sobre tudo, com base em um único post ou vídeo de três minutos.

Pensar criticamente não é desconfiar de tudo. É avaliar fontes, pesar evidências, reconhecer quando algo merece atenção e quando é ruído. É a diferença entre “Isso confirma o que eu acredito, então deve ser verdade” e “Isso confirma o que eu acredito, então preciso verificar com mais cuidado”.

A higiene mental que você não pratica

Você não deixaria lixo se acumular na sua casa, mas deixa informação não verificada se acumular na sua mente. Quantas vezes compartilhou algo porque “parecia verdade”? Formou opinião baseada só no título?

Absorvemos centenas de informações sem filtro crítico. E nos perguntamos por que nos sentimos ansiosos, confusos, divididos. Higiene mental não é paranoia. É autocuidado intelectual, a prática deliberada de proteger sua mente da infodemia, da manipulação, das mentiras que competem pela sua atenção.

Passos práticos

Você não pode desmantelar os algoritmos, mas pode desenvolver defesas para navegar esse ambiente sem ser colonizado.

Verifique em três camadas: fonte original, fontes independentes, perspectivas contrárias. Sem passar pelas três, você não tem informação suficiente.

Desconfie do que te faz sentir bem demais: quanto mais você concorda imediatamente, mais deve verificar.

Quebre sua bolha: siga pessoas com quem discorda, leia fontes diversas, busque especialistas reais. Lute contra o aprisionamento algorítmico.

Pratique a incerteza: “Eu não sei o suficiente” não é fraqueza, é integridade intelectual.

O discernimento como resistência

Vivemos onde a verdade é opcional, onde qualquer um fabrica realidades alternativas, onde algoritmos decidem o que você vê. Pensar criticamente não é apenas útil, é resistência.

Quando você se recusa a compartilhar antes de verificar, está resistindo. Quando admite que não sabe, está resistindo. Quando busca opiniões diferentes, está resistindo.

O que está em jogo não é apenas ser enganado. É a capacidade de uma sociedade se organizar em torno de uma realidade compartilhada. É a possibilidade de conversas genuínas. É o futuro da própria ideia de verdade.

Higiene mental não é paranoia — é sobrevivência.

Se você não filtra o que entra na sua mente, alguém está filtrando por você. E você não vai gostar dos interesses que essa pessoa ou algoritmo tem em mente.

Pela primeira vez na história, sua mente é um campo de batalha onde forças invisíveis lutam pelo controle da sua atenção, emoções, crenças e ações.

A pergunta não é se você vai ser alvo. Você já é.

A escolha sempre foi sua, só que agora você sabe disso.

A pergunta é: você vai se defender?

E encerrando 2025, deixo a minha mensagem!

Boas Festas e Feliz 2026!

Que 2026 seja um ano de renovação, clareza e escolhas conscientes. Agradeço a cada um de vocês, clientes e leitores, pela confiança e pela jornada compartilhada. Que possamos seguir construindo, juntos, um caminho profissional pautado em ética, conhecimento genuíno e discernimento.

Desejo a todos um ano repleto de realizações e paz.

Com gratidão,

Elisabeth Romar

Fontes e Referências

Dados sobre fraudes com deepfakes:

Artigo escrito em 21 de dezembro de 2025 por Elisabeth Romar.

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